2 de abr de 2017

De boas intenções...

No último post eu expliquei que queria falar sobre uma coisa, mas acabei falando sobre outra... Pois então, segue abaixo o que eu de fato estava planejando dizer na ocasião: ;)

* * * * *

Recentemente uma certa revolução vem acontecendo na minha maneira de encarar a vida, e por algum motivo achei que seria uma boa coisa escrever sobre isso. Então, cá estamos nós. ;)

Antes, porém, o contexto:

Nos últimos anos eu passei a ler bastante coisa por essa internet afora, sobre temas diversos: política, movimentos sociais, minorias. É verdade que eu sempre mantive minhas próprias ideias, nunca fui de concordar cegamente com tudo o que passava diante dos meus olhos; porém, às vezes sem nem perceber, a gente acaba se influenciando de alguma forma. No meu caso, posso dizer que a influência mais notória dessas minhas leituras foi a seguinte: comecei a problematizar um monte de coisas que até então nunca tinham sido problemas para mim.

Ah, eu tenho certeza que não fui a única a entrar nessa vibe - inclusive esse termo, problematizar, está bem na moda hoje em dia e, dependendo do meio em que você vive, essa postura é vista como uma coisa bastante positiva...

Mas ok, isto explicado, vamos agora a duas situações pelas quais já passei:
#1: Reunião de família, alguns parentes que vejo mais, outros que vejo menos. Chega uma tia com quem não tenho muito contato, mas de quem gosto muito, e que sei que gosta muito de mim. Ela diz: 'Nossa, você emagreceu! Tá tão linda!'

Reação da minha versão problematizadora da vida: Ai, fala sério... Então tô linda só porque tô mais magra? Ela não percebe que acabou de insinuar que me acha feia quando eu tô mais cheinha, e isso assim, na minha cara? Por que todo mundo se importa TANTO com peso, gente? É só peso! E quem disse que pedi opinião sobre meu corpo e minha aparência? Realmente, que preguiça disso tudo...

Atitude da minha versão problematizadora da vida: Dar um sorriso amarelo, não falar nada pra não criar um climão (nunca fui dessas) e ficar remoendo minha irritação em silêncio.
#2: Reunião de família na minha casa. Entre os parentes, um tio que eu devia ter visto uma ou duas vezes antes em toda a minha vida. Hora do almoço, vou na cozinha colocar meu prato e acabo encontrando o tal tio também se servindo. Quando termino de pegar o que quero comer, ele diz: 'Nossa, vai comer tudo isso? Assim vai continuar gorda, mesmo!' E dá uma risada como se tivesse dito algo muito engraçado.

Reação da minha versão problematizadora da vida: Mas... o quê?! Quem ele pensa que é? Nem me conhece, e vem na minha casa falar besteira pra mim? Tá louco?! Nem tem muita comida no meu prato, e mesmo que tivesse, NÃO É DA CONTA DELE! Por que as pessoas acham que têm direito de dar opinião sobre o meu corpo, se eu não pedi nenhuma? Que abusado, folgado, mal educado, QUE RAIVA! (etc, continua indefinidamente)

Atitude da minha versão problematizadora da vida: Ficar com o rosto queimando de ultraje e constrangimento, lançar o olhar mais venenoso possível até ele parar de rir, dar as costas, evitar/ignorar o grosseirão (para não criar climão, já disse que não sou dessas), e ficar remoendo minha irritação em silêncio por um longo tempo.
E aí, deu para perceber o que aconteceu? Se não, eu explico: minha versão problematizadora se irritou com os dois. Simplesmente colocou ambos como farinha do mesmo saco.

Mas... será que são mesmo?

Veja bem, minha tia não queria me ofender. A última coisa que passava pela cabeça dela ao dizer o que disse era me constranger, muito pelo contrário: ela estava querendo fazer um elogio, me colocar para cima, me fazer bem.

Já no caso do meu tio... eu não sei por que raios ele disse o que disse, mas de uma coisa eu tenho certeza: não foi para fazer com que eu me sentisse bem, ou para melhorar o meu dia.

Minha tia estava cheia de boas intenções. Meu tio, não.

Olhando agora, eu vejo claramente que é uma diferença importante demais para não ser levada em consideração. E é por isso que eu não consigo mais colocar os dois na mesma categoria; eles não estão.

Tudo bem, as críticas apontei na situação com a minha tia até que são mesmo válidas... Mas ela só queria me elogiar e me deixar feliz. Será que isso não é mais importante do que os problemas que encontrei na fala dela? Especialmente no mundo de hoje, que vive querendo te colocar pra baixo... alguém querendo te colocar para cima - ainda que de um jeito um pouquinho torto - não deveria valer mais?

Eu decidi que na minha vida, sim, vale mais.

Vejam bem, não estou dizendo que não vou mais perceber problemas em situações como essa, e em outras. Mas decidi que não vou mais deixar que a boa intenção de alguém que se importa comigo se transforme em uma coisa negativa. Não quero mais me irritar com essas pessoas. Quero aceitar de bom grado tudo que for positivo, e relevar o que não for.

Decidi que vou me irritar e me frustrar só com os mal intencionados, como meu tio.

E quer saber? Depois que tomei essas resoluções... foi um alívio. De verdade. A vida começou a ficar muito mais leve depois que mudei de atitude.

* * *

Então, se a minha versão de hoje passasse pela mesma situação com minha tia, as coisas seriam bem diferentes... Sabe o que eu faria? Eu sorriria, agradeceria, e ficaria genuinamente feliz com o que ela disse. :) Não pelo "elogio" de estar magra só peso, gente), mas sim por ela querer me elogiar, me deixar feliz... Descobri que eu posso aceitar exatamente isso sem transformar a coisa em um problema. Está certo, talvez em uma ocasião mais propícia que um encontro rápido em uma reunião de família, caso surgisse a oportunidade, eu até pudesse conversar e explicar porque não acho esse tipo de elogio o mais legal de todos. Mas se nunca houvesse essa chance, tudo bem também. Eu posso apenas aceitar a boa intenção dela e ficar feliz, sem culpa, sem poréns e sem climão.

Percebem onde eu quero chegar? ;)

E isso também vale para tantas outras situações... Tipo recentemente, no dia internacional da mulher, quando o que a gente mais vê nas redes é textão bradando que O dia internacional da mulher não é pra dar flores, é dia de luta!... Ok, eu entendo, e até certo nível, concordo. Mas gente, se meu avô de 80 anos chegar com uma florzinha pra mim, agora eu me dou o direito de simplesmente ficar feliz com esse gesto carinhoso em vez de me irritar porque "está tudo errado com esse mundo", entendem? ;)

Decidi que não preciso mais problematizar tudo. E como eu disse, depois que eu me permiti encarar a vida dessa forma...ela ficou muito, muito mais leve. Valeu a pena. 

Então, para resumir: pode até ser que de boas intenções o inferno esteja cheio... mas não sou eu quem vai chutar essas pessoas pra lá. Deixa o espaço para os mal intencionados, mesmo. ;)


Beijos.

PS: De novo é óbvio, mas não custa ressaltar: mais uma vez, estou falando exclusivamente sobre a minha experiência. Ninguém precisa concordar, não estou querendo impor meu pensamento e minha atitude a ninguém... Naturalmente cada um é livre para agir de acordo com a própria consciência e os próprios princípios. Paz. ;)

4 comentários:

  1. AMEI!

    Eu sou meio avessa a problematização, porque acho que, na maior parte do tempo, é caçar sarna pra se coçar. E é bem isso que você disse, não dá pra colocar todo mundo no mesmo saco, tem que considerar o contexto e as intenções da pessoa, sim. Sem contar que, quando a gente se preocupa tanto com coisas irrelevantes, acaba se esquecendo das que importam, como o tio que disse algo que eu não consigo enxergar outro propósito além de te ferir. Aliás, já passei por isso e, bom, digamos apenas que as pessoas só falam esse tipo de coisa comigo uma única vez, porque eu não me incomodo de gerar climão =P

    Bjs

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    1. Exatamente. <3

      Sério, é como eu disse... depois que mudei de atitude, foi um alívio, ficou tudo mais leve. :)

      Ah, um dia eu chego nesse patamar de responder do jeitinho que a galera mal intencionada merece. Mas por enquanto, eu fujo de conflitos, pq eles me afetam de verdade; sempre acho que não vou saber o que dizer, que vou ser esculhambada, o que só me faria sentir pior... então acabo engolindo o sapo. Mas tô chegando numa fase da vida em que tô cansando de engolir sapos também... uma hora dessas eu me liberto de vez e, qd necessário, parto pros climão meeermo, rs. ;)

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  2. Entendo completamente essa atitude. Poderia escrever algumas coisas aqui, mas você já ressaltou muito bem tudo o que precisava. E em vez de só remoer o que vem de fora pra dentro, será que eu também não fiz/disse algo pra alguém? Será que eu não tomei certas atitudes ruins quando falei com as outras pessoas, e nem percebi? É preciso pensar nisso, e tentar enxergar a beleza das coisas e transmitir só coisas boas em todos os momentos. E tentar o olhar além do nosso umbigo e perceber ao redor. Nunca sabemos quando pequenas atitudes e palavras podem mudam completamente a vida de outra pessoa sem percebermos.

    Já ouviu a música Save Myself do Ed Sheeran? É a última do novo álbum dele e é muito completa em vários sentidos https://www.youtube.com/watch?v=qXM0JdAwabU

    Aliás, o álbum inteiro é minha trilha sonora atual :)

    Obrigada pelo post.

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    Respostas
    1. "E em vez de só remoer o que vem de fora pra dentro, será que eu também não fiz/disse algo pra alguém? Será que eu não tomei certas atitudes ruins quando falei com as outras pessoas, e nem percebi?" Exatamente <3

      Não conheço a música, não..! Vou escutar :)

      Bjs

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