26 de out de 2013

Sem lenço e sem documento.

Eu sou dessas que vive tendo pensamentos de um dia simplesmente ir embora.

Já idealizei isso tantas vezes na minha cabeça! Apenas ir embora, sem me preocupar com nada. Que se danem as responsabilidades, o emprego, as pessoas, a coisa toda. Acordar um dia, ir ao banco e pegar todas as sensatas economias de uma vida, limpar a conta. Comprar uma passagem só de ida para algum lugar bem longe, não planejado. E ir embora. Sem lenço e sem documento, sem saber o que vai acontecer depois.

Imagine só, ir embora! Não precisar mais ver um monte de gente chata que não acrescenta nada na vida, gente que você adoraria não ter que ver mais. Ir pra longe até de quem você ama de verdade, mas que às vezes te sufoca com um monte de expectativas. Ir pra longe de lembranças ruins e amarguras. Pra longe de uma rotina que muitas vezes não tem sentido algum. Mudar de ares, de rumos, dar adeus aos dias iguais e sem graça, cheios de obrigações e tão carentes de prazeres.

Ir para bem longe. Pra um lugar interessante, bonito, empolgante. Conhecer gente nova. Ganhar dinheiro para a próxima viagem como der, fazendo uns bicos aqui e ali. Dormir onde der, comer onde der. Uma mochila nas costas, e a liberdade nas mãos.

Adiós, bitches. Hasta la vista, baby. Arrivederci. Au revoir. Até nunca mais, tchau, fui, beijo pra família.

* * *

Mas claro, esse tipo de coisa fica só no pensamento, mesmo. Ir embora e viver uma vida sem raízes, ainda que temporariamente, é para poucos. É para os ousados, os corajosos, os que não se importam com o julgamento alheio. Para os que não tem medo do desconhecido. Para os que não se importam em perder o controle das coisas de vez em quando.

Em outras palavras, para os que não são como eu. ;)

E outra: o problema de ir embora é que, não importa o quão longe você vá, você irá consigo. E a vida às vezes ensina - da forma mais irritante, inclusive - que muitas vezes o problema não é o lugar, o trabalho ou as pessoas, mas sim você. Pura e simplesmente. E como não dá pra ir embora sem se levar junto...

Então, não. Acho que ir embora não é pra mim, no fim das contas.

Mas ainda assim... eu gostaria. E continuo pensando nisso, sempre que a vida fica chata demais, pesada demais. Fico imaginando... e imaginando... e imaginando.

Quer saber? Provavelmente não vai acontecer nunca, mas gosto de pensar que, um dia, eu vou. Vou me armar de ousadia, com a cara e a coragem, e apenas vou. Vou para bem longe, por tempo indefinido, até cansar e querer voltar. Vou pegar minha mochila, e adiós, bitches!

* * *


Caminhando contra o vento, sem lenço sem e documento, num sol de quase dezembro, eu vou. Por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores vãos, eu vou. Sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos, eu quero seguir vivendo, amor...

Eu vou, por que não? Por que não? Por que não?

20 de out de 2013

Sobre ser super.

Eu acho que todo mundo algum dia já se imaginou tendo um superpoder. Quero dizer, vamos combinar: quem não gostaria de poder ter uma habilidade fora do normal pra ajudar a contornar as dificuldades do dia a dia?

Uns gostariam de voar. Outros, de poder ficar invisíveis. Outros prefeririam força suprema, inteligência fora do comum, a capacidade de ler mentes...

Um superpoder é sempre bem vindo, claro. Mas se pudesse escolher, o que eu queria mesmo era poder me teletransportar.

Já imaginou que beleza?

Nunca mais iria ficar presa no trânsito - com um pensamento já estaria onde preciso estar. Economizaria uma fortuna com passagem, combustível e etc. Teria mais tempo livre. Poderia dormir mais. E com certeza viveria menos estressada.

Poderia conhecer o mundo! Itália, França, Grécia, Japão, China, não importa: é só querer estar lá e estar. Sem avião apertado, sem estresse de aeroporto, sem nada.

Aliás, poderia conhecer absolutamente qualquer lugar, seja ali na esquina, ou do outro lado do planeta.

Está vindo aquele mala do outro lado da rua? Aquele desafeto? Aquele semi-conhecido chato? Aquele parente distante sem-noção? Daria para escapar deles em um piscar de olhos, e eles nem perceberiam sua fuga (bom, e se percebessem tanto faz, você não iria mais estar lá, mesmo).

Está na rua, e está apertado para ir ao banheiro? E não tem banheiro nenhum por perto? Com o poder do teletransporte, você nunca mais passaria por apertos desse tipo.

Super herói que se preze não faz coisas erradas, claro. Mas acho que eu não resistiria a aproveitar umas escapadinhas do tipo:

Me teletransportar para a beirada do palco no show do meu artista favorito.

Me teletransportar para pré-estréias de filmes ou peças onde só gente VIP tem convite.

Me teletransportar para lugares públicos - como museus, pontos turísticos e outros - fora do horário de funcionamento, pra poder ver tudo com calma, sem ninguém fazendo barulho e enchendo a paciência.

Entre outras milhares de coisas. Sei lá, são tantas as possibilidades! Só sei que em várias ocasiões do meu cotidiano eu já me peguei pensando: ah, se eu pudesse me teletransportar agora...

Então, teletransporte: eu escolho você!

Alguém invente uma forma de tornar o teletransporte real, e logo, por favor. Grata.

* * *

~ Mas e você, me conta: em que gostaria de ser super? :)




6 de out de 2013

Como fazer #1

Como fazer para irritar um fisioterapeuta em poucas frases:

- Ah, então você é fisioterapeuta, é? Nossa, sabe que eu tô com uma dor horrível aqui no meu pescoço... o que você acha que é, hein? Bem que você podia me fazer uma massagem depois... ah, e o que você acha, coloco gelo ou bolsa de água quente?

Missão cumprida, parabéns! \o/

Irritação #1
- Tô com uma dor horrível aqui no meu pescoço... o que você acha que é, hein?
- Puxa vida, me desculpe, mas esqueci minha bola de cristal em casa... Infelizmente não vou poder adivinhar hoje, fica pra próxima, pode ser?

Gente, fisioterapeuta não é vidente, sabiam? Se você está com uma dor no pescoço, podem ser inúmeras coisas, que eu, com apenas um olhar, não tenho como saber... É claro que com os anos de experiência (coisa que ainda não tenho, por sinal) a gente até pode ter uma idéia, dependendo do caso. Mas não tenho como dizer que você tem, por exemplo, uma hérnia de disco entre C5 e C6 com retrolistese associada só de olhar pra sua cara, ok?

Porém, felizmente, é bem simples resolver esse problema: procure um médico, e ele provavelmente irá pedir algum exame complementar para te dar um diagnóstico. E então, aí sim a gente pode começar a conversar...

Irritação #2
- Puxa, bem que você podia me fazer uma massagem depois...

Quer irritar um fisioterapeuta? Então sugira que ele é um massagista.

Olha, longe de mim, não tenho absolutamente nada contra os massoterapeutas. É um trabalho muito eficaz, importante e necessário. Além disso, quem não ama receber uma boa massagem, não é mesmo? E é verdade, terapias manuais fazem parte da formação de um fisioterapeuta. Mas vamos apenas dizer que nos atuais cinco anos que passamos na faculdade, aprendemos muitas coisas além disso...

Portanto, vamos assimilar: um massoterapeuta é um massoterapeuta; e um fisioterapeuta é um fisioterapeuta. Ambas são profissões importantes e relevantes, porém são diferentes. POR FAVOR, não confunda os dois. Grata.

Irritação #3
- Ah, e o que você acha, coloco gelo ou bolsa de água quente?
- Oh, sim, amada pessoa, vou te responder agora, numa micro-consulta-relâmpago-grátis - mesmo porque apenas a imensa satisfação de saber que pude te ajudar de alguma forma irá fazer surgir um cheque gordo na minha carteira para pagar minhas contas no fim do mês. Vamos lá...

Vamos por partes:

Primeiro, vamos combinar: esse tipo de conversa sempre surge nas ocasiões mais inapropriadas - geralmente em reuniões sociais, ou encontros casuais rápidos. A pessoa descobre que você é fisioterapeuta, e decide se ~consultar~ ali mesmo, onde estiver. Mas, veja só: eu não te avaliei. Não conheço seu histórico patológico atual e pregresso, ou no máximo conheço superficialmente. Na maioria das vezes, nem ao menos sei o que você tem ao certo. Então, me diga: como é que posso prescrever algum tipo de tratamento assim, só de olhada? Amigo, não dá. É até uma coisa meio irresponsável sair prescrevendo tratamentos assim, sem mais nem menos, sem conhecimento de causa...

E segundo: gente, não é mesquinhez. Mas que mania irritante é essa que as pessoas têm de quererem que você trabalhe de graça. Sério, está com dor? Está precisando de fisioterapia? Então, marque uma consulta com um um fisioterapeuta e pague pelo serviço. Se não puder pagar, procure atendimento pelo SUS - infelizmente, a fisioterapia não é valorizada na rede pública de saúde (nem na rede privada, mas abafa o caso), porém é possível encontrar vagas; outra opção são as universidades, que costumam possuir clínicas onde geralmente os alunos atendem gratuitamente sob a supervisão de seus professores...

É claro, trabalhamos em uma área que muitas vezes lida diretamente com o cuidado, com a dor das pessoas; buscamos a melhora da qualidade de vida dos nossos pacientes, e é realmente muito gratificante ver alguém melhor depois da nossa intervenção, saber que fizemos a diferença na vida de alguém. Mas satisfação apenas não paga as contas. É um trabalho - um trabalho que requer muito estudo, dedicação, tempo... é apenas justo receber uma remuneração por isso. Certo? Então, não fique com essa inconveniência de querer consulta-relâmpago-grátis, porque isso é chato.

* * *

E é isso aí. Aprenderam direitinho? Se alguém aí quiser irritar um fisioterapeuta, é só seguir essas dicas que não tem erro. ;)