19 de set de 2013

Quero ver.

Já ouviu falar de uma história chamada Moça com Brinco de Pérola?

Provavelmente já. Existe um livro, escrito por Tracy Chevalier. E também um filme lançado em 2003, com Scarlett Johansson e Colin Firth no elenco. E, é claro, um quadro muito famoso.


A história é bem interessante. Tendo como ponto de partida a famosa pintura de Johannes Vermeer, a trama trata de recriar a tal moça com brinco de pérola. Quem seria ela? Como ela teria conhecido o pintor? Em quais circunstâncias foi pintado o quadro? O que ela pensava enquanto ele a pintava?

Claro, trata-se de ficção. Mas ainda assim, como disse antes, é bem interessante. Recomendo, tanto o livro quanto o filme. São ótimos.

* * *

Mas minha intenção com esse post não é fazer uma resenha, nem nada do gênero. Não é por isso que estou falando da história, mas sim para destacar um detalhe em especial que sempre me chamou a atenção.

Há uma parte em que Vermeer tenta ensinar a Griet (a protagonista) algumas coisas sobre pintura. E ele diz a ela que um princípio fundamental é pintar aquilo que você , e não o que você sabe.

Interessante, não? Porque, vejam bem, é verdade que sabemos muitas coisas: sabemos que o céu é azul, que as folhas das árvores são verdes, que o tronco é marrom. Sei que meus olhos e meus cabelos são castanhos escuros, sei que as paredes do meu quarto são amarelas, que uma rosa vermelha é vermelha.

Mas... você já parou para realmente ver? Esquecer o que sabe, e apenas enxergar o que está bem ali diante dos seus olhos, ignorando totalmente qualquer carga anterior de conhecimento?

Às vezes me lembro desse trecho da história, e, então, olhando para as paredes do meu quarto, finalmente percebo que elas não são unicamente amarelas: são também brancas, cinzas, têm tons tão escuros que beiram o negro onde as sombras tocam.

E o céu? Já olhou o céu com atenção? Quem disse que ele é azul? Se você olhar bem, em diferentes momentos, vai ver tantas cores que ficará impressionado...

É assim, sabe? Não importa quantas coisas a gente saiba, real mesmo é apenas aquilo que as luzes e as sombras pintam, independente de qualquer outra coisa.

É tão louco quando a gente consegue abrir os olhos de verdade, e apenas ver. Os conceitos preestabelecidos caem por terra; há um mundo ali, que sempre esteve ali, e que você nunca enxergou apenas porque seu conhecimento prévio não te permitia nem ao menos conceber a existência dele...

E, convenhamos: até aqui eu estava falando de um mundo físico, de cores e tons e sombras e nuances e cheiros e texturas... Mas tenho certeza de que não é preciso muita meditação para perceber que aí há também uma importante lição que vai para muito além de um mundo físico.

Imagino quantas vezes não acontece isso com a gente? Ficamos presos no nosso mundinho das obrigações, do possível, do real, do que sabemos... e deixamos de enxergar o que está bem diante do nosso nariz, tão claro, tão óbvio, mas, ainda assim, tão invisível.

Eu me pergunto: será que as respostas para tantas dúvidas e questionamentos que me preocupam todos os dias não estão bem aqui, diante dos meus olhos, e eu apenas não consigo enxergar? Estou cega a elas, enquanto repousam aqui, timidamente, a espera de serem descobertas?

Então, minha grande pergunta é: como faço para enxergar?

Se alguém descobrir, me conte...

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