5 de abr de 2013

The funny tricks of time.

Esses dias eu estava pensando em como o tempo tem uma forma engraçada de tratar as memórias. Já reparou? Ele tem essa mania de manipular o passado, fazendo o que foi bom parecer ainda melhor, enquanto piora o que já foi ruim...

Quer ver?

Para quem não sabe, morei na Itália por alguns meses há cerca dez anos atrás, e posso dizer que aquela foi uma das fases mais felizes da minha vida. Minhas lembranças daquele período são as melhores possíveis: os passeios, os lugares que visitamos, os italianos (gente finíssima!) que conhecemos, os jantares de pizza e massa na casa deles, o frio, os casacos pesados, as lareiras e o cheiro de fumaça no ar gelado da noite, dias e mais dias sem escola, a visita dos meus primos e da minha avó... tantas coisas, essas e outras mais, que ainda hoje me trazem um sorriso ao rosto.

Porém, é claro que nem tudo deve ter sido tão perfeito o tempo todo. Por exemplo, lembro vagamente que fiquei chateada porque minhas duas melhores amigas da época começaram a namorar, e eu, estando longe, fiquei para trás; de sentir medo que minha cachorrinha, que ficou com amigos nossos, me esquecesse e não se adaptasse de novo à minha casa quando eu voltasse; de algumas ocasiões em que senti falta de casa, da família, dos amigos, da igreja.

Mas quer saber? Na verdade, é como se o tempo tivesse lapidado todas as minhas lembranças da Itália, transformando-as em uma espécie de tesouro particular. Tenho que me esforçar para lembrar dos dias ruins, enquanto que os bons vêm com absoluta facilidade.

Só que o contrário também se aplica. Concidência ou não, depois que voltei da Itália passei por uma das piores fases da minha vida: dificuldades para me readaptar à minha vida antiga, dilemas típicos do começo da adolescência, perda de amizades, problemas na escola... Minhas lembranças daqueles dias são tão nebulosas que chega a me embrulhar o estômago se começo a pensar a respeito.

Mas, como na caso anterior, também sei que houve dias bons no meio da tempestade. Tenho lembranças discretas (mas reais) de me sentir alegre assistindo Betty, a Feia, Chocolate com Pimenta e os últimos capítulos de A Casa das Sete Mulheres; de me alegrar cantando músicas da Laura Pausini e da Avril Lavigne no intervalo das aulas junto de outros poucos alunos solitários como eu, de ficar feliz quando por acaso alguém elogiava minha voz; da visita à Biblioteca Nacional e do passeio da escola em Niterói que foi incrível, ainda que eu não me lembre bem dos detalhes...

Entretanto, apesar dessas coisas, não tem jeito: quando lembro desse período da minha vida, geralmente só me vem um gosto amargo na boca. Os momentos alegres não são páreo para os difíceis, não conseguem compensá-los e fazer valer a pena rememorar aqueles dias.

Daí que torno a dizer: engraçado o tempo, não? Não sei se é só comigo que ele arma essas pegadinhas, e ainda não consegui ter certeza se essa característica é boa ou não... Talvez seja. Vai saber.

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3 de abr de 2013

Meu caleidoscópio.

Há alguns anos atrás, eu cismei que queria construir um caleidoscópio. Nem queira saber o motivo, é uma longa história... mas eu decidi que queria, e pronto.

Pesquisei na internet e vi que até que não era tão difícil. Cataloguei o material que iria precisar, imprimi um passo a passo da construção e comecei a atividade: em um dia, pedi à minha mãe para ir comigo comprar um cano de PVC do tamanho certo em uma loja no outro canto da cidade; em outro dia, na volta da escola, parei em uma vidraçaria da vizinhança e encomendei os espelhos e as peças de vidro que iria precisar; em casa, futuquei a caixa de materiais de confecção de bijuterias e separei as pedrinhas mais bonitas, mais coloridas, com os tamanhos e formas que mais combinassem para o meu caleidoscópio.

Enquanto isso, ia ouvindo comentários: Caleidoscópio? Que é isso? Mas pra que serve? E pra que é que você quer isso? Caramba, um trabalhão desses só pra ficar olhando umas pedrinhas coloridas? E por aí vai. Mas não me importei... Ou talvez até tenha me importado, mas não o suficiente para me fazer desistir. Eu ia montar meu caleidoscópio de qualquer jeito.

Então o tempo passou e consegui juntar tudo o que precisava; com o material reunido e um pouquinho de ajuda, mãos à obra! Visor preparado, espelhos encaixados, pedrinhas no lugar, extremidades fechadas... e voilá: estava pronto meu caleidoscópio, lindo e perfeito como eu imaginei.

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Lembro bem de como me senti feliz com meu caleidoscópio pronto nas mãos. Foi uma sensação boa, de realização: eu tinha conseguido. Por mais trabalho que tenha dado para ler e pesquisar. Por mais que eu tenha pulado de loja em loja, gastado dinheiro. Por mais que achassem bobagem. No final, tudo valeu a pena.

E sabe o que foi mais interessante? É que depois do caleidoscópio pronto, praticamente todas as pessoas que achavam uma besteira eu me dar ao trabalho de construí-lo ficaram encantadas com ele. Era um tal de Pega lá o caleidoscópio pra eu ver! ou Já mostrou o caleidoscópio pro Fulano? ou ainda Nossa, que legal. É lindo!

Sabe, pode parecer uma grande bobagem para quem está de fora, mas sinto que construir meu caleidoscópio me ensinou uma grande lição. Hoje em dia ele ainda está aqui, velhinho, meio embaçado pelo tempo, já remendado algumas vezes. Mas sempre que olho para ele, me lembro: se fui capaz de construí-lo, sou capaz de construir outras coisas tão bonitas quanto. Basta querer de verdade.

Talvez seja isso que esteja faltando na minha vida, sabe? Construir mais caleidoscópios...

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